Uma tese por dia para descolonizar a história
por Boaventura de Sousa Santos
Este texto é o primeiro de uma série de quinze curtos textos, a publicar um por dia, sobre o tema da descolonização da história. O conjunto dos quinze textos constituem o capítulo 2 do meu novo livro Os Labirintos do Conhecimento e do autoconhecimento: o Sul epistémico que será publicado em espanhol no início de 2027 (Editora Trotta) e que eventualmente também será publicado em inglês e português. As referências bibliográficas só estarão acessíveis no livro.
Tese 1. O peso da história varia consoante o tipo de geração que o mede.
O significado íntimo da história […] implica especulação e a tentativa de chegar à verdade, uma explicação subtil das causas e origens das coisas que existem e um conhecimento profundo do como e do porquê daquilo que acontece. A história tem, portanto, raízes firmes na filosofia. (Ibn Khaldun 1958, vol. 1: 5)
Cada geração deve, por entre uma opacidade relativa, descobrir a sua missão e cumpri-la ou traí-la (Fanon 1968: 206)
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O peso da história varia consoante o tipo de geração que o mede.
Num dado contexto histórico novo, como sucede numa revolução, o peso da história tende a ser leve para as gerações – chamemos-lhes “gerações inaugurais” – que estão presentes desde o início. Em contrapartida, ele tende a ser pesado para as gerações subsequentes – chamemos-lhes “gerações do depois”. Os dois tipos de geração correspondem a duas concepções distintas do passado, respectivamente o passado como missão ou tarefa e o passado como riqueza ou troféu. Para as gerações inaugurais, o passado é aberto e inacabado; para as gerações do depois, ele está fechado e já foi cumprido. A prevalência relativa de um ou outro dos dois tipos de geração é o que determina o peso relativo da história. Qual o tipo de geração prevalecente nos nossos tempos?
Desde a década de 1970 que as gerações do depois têm dominado. A metáfora farsesca do fim da história (Niethammer 1992; Fukuyama 1992) – (1) marcou a confirmação definitiva das gerações do depois e a irreversível derrota, se não mesmo extinção, das gerações inaugurais (Anderson 1992). Com isso a história tornou-se extremamente pesada, tão pesada como a derrota das gerações inaugurais. Ainda que em termos muito diversos e extremamente desiguais, é esse o tempo em que actualmente vivemos. O peso da história está a tornar-se sufocante para os órfãos das gerações inaugurais.
Ser órfão transmite a ideia de perda (2). Não necessariamente a ideia de inconformismo. Conformar-se com a orfandade exige resignação e nostalgia; não se conformar exige revolta e esperança. O órfão conformista das gerações inaugurais aspira a pertencer às gerações do depois, apagando assim da memória a instauração e substituindo-a pela posteridade. Pelo contrário, os órfãos inconformistas das gerações inaugurais pretendem reconstruir a instauração. Uma das tarefas que isso implica é aquilo a que chamo descolonizar a história.
Notas
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Uma outra concepção do fim da história (o fim da disciplina da história) é a que foi proposta por críticos da hegemonia ocidental como Ashis Nandy, um autor que, mais do que propor a criação de narrativas históricas alternativas, nos desafia a avançar para “alternativas à história” (1995: 45).
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Com a ascensão do colonialismo e à medida que o Ocidente se foi tornando, teoricamente, sujeito soberano de todas as histórias (Chakrabarty 1992: 1), as sociedades não-europeias viveram um outro tipo de orfandade: as suas histórias foram violentamente interrompidas e o colonialismo obrigou-as a enveredar por uma nova história (questão a retomar adiante).

